Entrelaces artesanais: a técnica da “palhinha” [rejilla] no mobiliário
dos Santos Cardoso, Cecília Mónica.
Doutoranda em Estudos do Património Investigadora Integrada CITCEM
(Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Porto, Portugal.
ceciliamscardoso@gmail.com
Etiquetas/Tags: Mujeres, Oficios, Taller, Materiales, Documentación oral.
Nos séculos XIX e XX, o concelho de Gondomar (limítrofe da cidade do Porto – Portugal) concentrou um elevado número de ofícios da madeira. Esta realidade de produção, de caráter artesanal e familiar, manteve-se ativa e próspera até finais da década de oitenta de novecentos. As oficinas desenvolveram trabalhos de mobiliário de caráter funcional, mas também de móvel de estilo, contribuindo para o perpetuar do gosto neo no mobiliário. Pelo seu caráter familiar, muitas destas oficinas especializaram-se em determinadas técnicas, funcionando em rede entre si. Assim, por todo o concelho, para além do elevado número de marcenarias existia, também, um número significativo de oficinas das especialidades de entalhador, torneiro, polidor, envernizador, etc. Muitas cadeiras, cadeirões, canapés, entre outras peças, eram revestidos com palha da Índia. Este ofício era executado pelo empalhador ou oficial de “palhinha”, que em Gondomar conheceu contornos muito particulares.
A comunicação que me proponho apresentar, e que resulta do projeto de doutoramento em curso na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, destina-se a demonstrar a relação entre o trabalho feminino, em contexto doméstico, e as oficinas de marcenaria em Gondomar. Neste município, a técnica da “palhinha” [rejilla] era concretizada especialmente por mulheres e raparigas adolescentes no seu próprio domicílio. Com o decréscimo acentuado da indústria do mobiliário neste concelho, no final do século XX, esta prática praticamente se perdeu. Apesar de algumas mulheres serem ainda detentoras do conhecimento da técnica da “palhinha”, até ao momento apenas identificámos uma “palheireira” (empalhadeira ou oficial de palhinha) em atividade.
Pretende-se, com esta comunicação, partilhar alguns dos resultados do estudo deste ofício, obtidos a partir da realização de entrevistas às últimas artesãs naturais do concelho e da recolha de imagens da aplicação da técnica da “palhinha” no mobiliário pela “palheireira” gondomarense. Este levantamento permite estabelecer a comparação entre os processos utilizados no passado e no presente e, com isso, demonstrar as permanências e as alterações ao nível deste ofício, comparando-o com os métodos francês, inglês e brasileiro.
Embora tradicionalmente fosse utilizada como matéria-prima a palha da Índia, na atualidade começa a ser empregue o fio sintético, sobretudo no mobiliário destinado ao exterior das habitações, por este ser mais resistente às intempéries. O recurso aos materiais sintéticos tem vindo a impor-se no mercado, por razões de custo e durabilidade. No entanto, o mobiliário histórico e as técnicas tradicionais continuam a atrair um setor do público que, detentor de peças adquiridas ou herdadas, continua interessado no emprego ou renovação da “palhinha” artesanal. É urgente, assim, o conhecimento e divulgação desta técnica, que deverá ser mantida e preservada.